Roberto Corrêa por amigos Roberto Corrêa por amigos Roberto Corrêa por amigos Roberto Corrêa por amigos Roberto Corrêa por amigos da trajetória

Por J. C. Botezelli (Pelão)Retorna para o topo da página

Meu Caro Ucha.....

A história da viola perde-se na distância dos séculos (4.000 a.C.). No Brasil ela foi introduzida pelos jesuítas portugueses, tendo sido assimilada pelos criadores espontâneos que fazem o folclore. Transmitida de pai para filhos, ou para quem quisesse aprender, a viola e o violeiro eram pessoas de destaque nas festas populares. Hoje em dia, com o desaparecimento dos motivos populares e o desinteresse pelas tradições culturais, corremos o risco de nos vermos privados destes ritmos maravilhosos que compõem a verdadeira cultura do nosso povo.
Quero falar para você, Danilo Ucha, meu velho companheiro de muitas tertúlias aí no Rio Grande, que acabo de gravar o primeiro disco de viola pura no Brasil - até agora tínhamos apenas disco com viola e violão ou outros acompanhamentos. Acabo de gravar com o Roberto Corrêa, hoje, sem dúvida, o violeiro mais completo do Brasil, que me foi apresentado por dois grandes violonistas, o João de Aquino e o Maurício Carrilho.
Natural de Campina Verde, Minas Gerais - filho de Dona Eleusa Nunes Corrêa e Avaí Damião - residente em Brasília, Roberto Corrêa é, além de concertista, pesquisador e compositor. Aos nove anos teve seus primeiros contatos com a música, quando começou a estudar violão, ainda em Campina Verde, com Zé da Conceição - grande músico que tocava violão de ouvido. Mais tarde, quando cursava a faculdade de física participou de um grupo de música folclórica, o Olho d'Água. Foi nesta ocasião que surgiu o interesse maior pela viola. Decidido a aprender o instrumento e não encontrando nada escrito, ingressou na faculdade de música e começou a pesquisar a viola, através do CNPq. O resultado de três anos e meio de pesquisa foi o livro VIOLA CAIPIRA, único sobre viola. No momento, leciona viola na Escola de Música, realiza recitais com objetivo de mostrar a potencialidade da viola como instrumento solista e acaba de terminar um novo livro sobre viola.
Para Roberto, sua vida é a viola, como ele próprio o afirmou em depoimento a Olyr Corrêa: "... a minha vida é a viola. Explicar logicamente porque eu fui me identificar com a viola não é possível... É atávico... Meu bisavô era capitão de folia de reis, um grande violeiro; e o meu avô, outro grande violeiro, um catireiro, um fazedor de modas... Meu negócio é difundir a viola, o instrumento, é fazer com que as pessoas toquem, ensinar pra todo o mundo. Eu não tenho segredo nenhum; eu tenho um compromisso comigo disso; porque tudo que eu aprendi foram os violeiros que me ensinaram de bom coração. Assim, eu não posso esconder nada, eu não nego nada para ninguém em termos de viola. Mantendo o coração aberto a gente recebe mais informações, tem uma captação maior. Então o negócio é difundir a viola, e, junto com ela, a música caipira. Mas a música caipira entendida no contexto dela, e o contexto dela evoluindo pro moderno, mas partindo de uma tradição. Porque só podemos fazer um grande trabalho com a viola quando partimos da tradição..."
Gravamos sete clássicos da música brasileira: o Trenzinho do Caipira, Siriema, Boiada Cuiabana, Pagode em Brasília, Tristeza do Jeca, Chico Mineiro, Saudades de Matão; e mais cinco composições de Roberto: Lacuticho, Anti-Viola, Jararaca Chateadeira, Reqüenqüem, e Araponga Isprivitada - para mostrar também o seu lado de compositor.
Em Siriema ele toca uma viola de cocho com tripas de ouriço, feita por Manoel Severino de Moraes, em Cuiabá, MT. Na música Chico Mineiro é uma viola tipo Amarantina, fabricada por Dico "Aden", em Taguatinga, DF. Em Jararaca Chateadeira é uma viola de concepção moderna, fabricada por Vergílio Artur de Lima, de Sabará, MG. Nas outras músicas só deu a viola de cravelha modelo antigo, fabricada também pelo Vergílio. E tudo isso em menos de seis horas (8/6/88), no Estúdio Federal, que é de um grande cantor brasileiro, Jessé, que também foi o engenheiro de gravação. Ucha, sem dúvida alguma o Roberto se iguala à músicos como o nosso Luiz Carlos Borges ou ao Toinho Alves do Quinteto Violado, que vivem para a música. Maria Cristina, Bartira e Marianna mandam abraços a você, a Jair e ao pessoal do Jornal da Noite.

Sem mais, abraço amigo do irmão,
Pelão

São Paulo, junho de 88
Texto de apresentação no vinil "Viola Caipira, um pequeno concerto" (1988), relançado em CD pela RGE em 1998.

 

Por Hermínio Bello de CarvalhoRetorna para o topo da página

NHÔ ROBERTO CORRÊA, ESSE VIOLEIRO CAIPIRA

... e lá vai Nhô Roberto Corrêa, sinhozinho caipira bonito que nem ele só, amontado num alazão prateado que avôa fogoso espumando pelas ventas. E lá vem esse capiau maratimba cafumango mandioqueiro mano-juca macufo beira-corgo roceiro catrumano matuto muxuango e muierengo que nem a peste, lá vem esse caipirão xucro com seu matulão carregado de lendas e crendices, contando histórias de outros tocadores e carregando na sua viola o chocoalho da cascavel, talismã de qualquer bom violeiro que se preze. E lá vai esse matutão temperando as cordas de sua marvada viola que é toda incrustada de madrepérola e ouros e pratas e esmeraldas, que nem luzeiro, ela rescendendo a garapa, torresminho e broa de milho. E lá vem ele, figurante de presepe, com os oião esbugalhados para a vida, encarapitado em suas botas de couro, ensinando para a gente brasileira o sentimento caipira-sertanejo, com o poder que Deus lhe deu de fazer entoar em suas cantorias todos os sabiás e juritis e sanhaços que hoje fazem em sua viola gemedeira e zangarilha que nem a de meu avô Gregório, que foi tocador afamado lá pelas bandas da Ilha da Gipóia, e que tinha o coração encravelhado igualzinho ao desse caipirão violeiro.

Hermínio Bello de Carvalho, neto de Gregório

23 de agosto de 1989
Texto de apresentação no vinil "Viola Andarilha" (1989)

 

Por Flávio RamosRetorna para o topo da página

DA MÚSICA E DA ESPIRITUALIDADE

Roberto Corrêa é uma pessoa diferente. Respira música, em vez do oxigênio dos demais mortais. É o amigo ideal quatorze horas por dia. Nas outras, estuda, pesquisa, toca, se aperfeiçoa. Todos os dias.

Roberto, físico e músico, nascido Nunes Corrêa, há 37 anos, em Campina Verde, no Triângulo Mineiro, traz no sangue a herança da viola. Seu bisavô, Damião Corrêa da Silva, antigo "capitão de folia de reis", era respeitado em toda a região como violeiro dos melhores. Seu avô, João Baptista Corrêa, herdeiro da tradição paterna, era, também, violeiro de respeito. Exímio instrumentista, era, ainda, bom fazedor de versos. Usava a viola como meio de expressão e crítica aos costumes da época. Foi barbaramente assassinado em uma tocaia encomendada pelos poderosos da região, determinados a calar o artista que, com seu instrumento e seus versos, falava da opressão do forte sobre o fraco. Deixou várias poesias que Roberto vem musicando. Um dia, que espero breve, ele há de nos brindar com a gravação dessas músicas, modas de viola, principalmente.
Na trilha da tradição familiar, Roberto Corrêa é um músico completo. Exímio violeiro e compositor brilhante, é também um dos mais importantes pesquisadores de música caipira desse esquecido Brasil. É de sua autoria o primeiro livro publicado no país sobre o instrumento: Viola Caipira, editado em 1983.
Conhecido e respeitado praticamente no mundo inteiro, onde tem apresentado recitais, Roberto Corrêa mereceu, de uma das mais prestigiosas publicações do planeta, LE MONDE DE LA MUSIQUE, da França, elogiosas referências ao seu trabalho, ao apreciar o CD "Viola Caipira - Brazil", da série Traditional Music of the World, editado na Alemanha, em 1989.
Roberto é desses artistas que os adjetivos não qualificam. Basta que se escute a sua música.
E, neste CD que agora vem a público, Roberto Corrêa apresenta, com primor técnico, suas mais notáveis composições-solo para o instrumento. É um disco maduro, em que o artista não fez concessões ao sucesso fácil das músicas já consagradas. Optou por apresentar exclusivamente suas obras, preferindo expor por inteiro o seu duplo talento: o de intérprete e o de criador. Talvez fosse melhor dizer o seu múltiplo talento, pois também o pesquisador está presente na quase totalidade das composições, resgatando ritmos, técnicas, valores e regionalismos esquecidos por esse imenso país.

A notável Suíte das Cobras é exemplo acabado dessa afirmativa. Ali, Roberto coloca na viola uma riqueza rítmica e folclórica tão grande que se tem a impressão de vê-lo recontar a própria história da simbiose homem/natureza, tão forte nas criaturas sensíveis.

Não se pense, porém, que a música de Roberto Corrêa traz qualquer ranço de passado, ou de saudosismo. A atualidade da sua música vem bem expressa na sua visão de pesquisador, impregnada da sabedoria dos orientais, magistralmente expressa no hexagrama TA CH'U - "0 Poder de Domar do Grande" - do Livro das Mutações :
0 estudo do passado não se deve limitar a um mero conhecimento da história, mas deve, por meio da aplicação desse conhecimento, procurar dar atualidade ao passado.
Místico, Roberto Corrêa põe em suas músicas o espírito das coisas divinas, manifestado em toda a natureza, a inspiração e a razão de ser do seu trabalho.
Ouçamos Roberto Corrêa e deixemo-nos transportar por sua música ao seio sagrado da natureza, onde o Criador instalou seu trono.

Brasília - DF, julho de 1994
FLÁVIO RAMOS
Texto de apresentação no CD "Uróboro" 1994

 

Por J. L. FerreteRetorna para o topo da página

Dos quase quarenta minutos de conteúdo musical deste Lp, mais de dois terços são destinados a Roberto Corrêa e sua viola. E quem é Roberto Corrêa ou, como foi registrado civilmente, Roberto Nunes Corrêa?
Nascido em Campina Verde, Minas Gerais, em 1957, com apenas 18 anos de idade deslocou-se para Brasília a fim de estudar física, trazendo dentro do coração, porém, imenso amor pela música. Como já tocasse violão desde os dez anos de idade, uniu-se à colegas da Universidade de Brasília igualmente musicais de espírito e, com eles, criou o conjunto Olho d'Água, restrito em suas apresentações, todavia, ao âmbito universitário. O próximo passo de Roberto Corrêa ao terminar o curso de física, decorrentemente, foi dado no sentido da música, que ele estudou no Departamento de Artes da UnB. Foi quando lhe chegou em definitivo o gosto pela viola caipira, instrumento que passou a pesquisar pormenorizadamente nas regiões brasileiras de maior uso.
Das pesquisas de Roberto Corrêa iria surgir em 1983 um livro seu - Viola Caipira - contendo farto e importante material informativo sobre o instrumento. E o próprio Corrêa, a seguir, viria a lecionar viola caipira na Escola de Música de Brasília.
Nestes três últimos anos, de 1983 a 1986, Roberto Corrêa vem participando de inúmeros eventos musicais pelo país a fora, inclusive por televisão, fazendo da viola caipira uma espécie de estandarte símbolo com que caracteriza campanha artística eminentemente voltada às raizes populares de nossa criação musical.
Virtuose no sentido mais construtivo da expressão, é um dos raros executantes da viola caipira capaz de exibi-la como instrumento de concerto e, sem descer à vulgaridades às vezes inevitáveis, acompanhar com ela, desembaraçadamente, uma dupla de cantores de catira ou cururu. Suas intervenções neste disco dão uma idéia ao ouvinte do quanto Roberto Corrêa é capaz, mas se recomenda ouví-lo ao vivo, indubitavelmente mais impressionante pela amplitude realística do som que faz expandir.
J. L. Ferrete

Março de 1986
Texto de apresentação no vinil "Marvada Viola, Ao Capitão Furtado", Funarte (1987), relançado em CD pela Atração (1997).

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