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O músico que se utiliza
da viola para expressar seus sentimentos e emoções
é denominado "violeiro".
Os violeiros tradicionais acreditam que a arte da viola é
um dom de Deus: quem não nasceu com ele nem adianta tentar,
pois nunca será um violeiro; a não ser que faça
o Pacto com o diabo, ou a Simpatia da cobra coral, ou ainda a
Simpatia do cemitério.
Para fazer a Simpatia da cobra coral, o aprendiz tem de sair
à procura, durante a noite, de um filhote de cobra coral
venenosa e, assim que encontrar, deve, com o polegar e o indicador
da mão direita, agarrá-lo pela cabeça, deixando
que ele se enrosque todo. Feito isto, deve desembaraçá-lo,
pacientemente, com a mão esquerda, sem usar o polegar,
fazendo com que ele se enrole nos outros dedos. Em seguida, para
finalizar, deve soltá-lo na mesma posição
e no mesmo lugar onde foi encontrado.
Essa simpatia é conhecida por grande parte dos violeiros,
sendo contada e recontada de várias maneiras. Esta foi
a descrição mais interessante que colhi e o violeiro
que a relatou insistiu que era muito importante seguir à
risca o ensinamento porque tudo tinha fundamento. O polegar e
o indicador da mão direita são usados nos ponteados,
o que requer muita destreza. Os dedos da mão esquerda
também requerem agilidade, porém o polegar desta
mão não deve ser tocado pela cobra, pois é
ele quem vai controlar as outros dedos.
O cuidado maió tá na sortura da cobra, pegá
até que é fácil, afirmava o violeiro, esclarecendo
que, para não perder sua magia para o homem, a cobra tentaria,
de todas as maneiras matá-lo com sua picada.
Na Simpatia do cemitério, o aprendiz tem de se informar
sobre o local onde foi enterrado um grande violeiro, dos antigos.
Na Sexta-feira da Paixão, à meia-noite, sem levar
luz, deve-se pular o muro do cemitério e, sem, fazer barulho,
ajoelhar-se à beira do túmulo, estendendo os braços
para a frente, com os dedos bem abertos. O aprendiz fecha, então,
os olhos, concentra-se, reza três Ave-Marias e pede para
a alma daquele violeiro lhe passar os segredos do instrumento.
Com pouco tempo, a pessoa sente um "frio" na espinha
e sente também seus dedos sendo puxados e estralados,
seguindo-se um leve tontura, que logo passa, quando se dá
uma ventania no local, encerrando, assim, o ritual de passagem.
A pessoa, em agradecimento, deve rezar mais três Ave-Marias,
pois já é um grande violeiro.
Comenta-se muito, entre violeiros, o Pacto com o diabo. Um dos
muitos causos, aconteceu numa região do Triângulo
Mineiro, onde, tempos atrás, vivia um sujeito muito poderoso
que, tendo verdadeira adoração por viola e não
conseguindo aprender, resolveu fazer o tal "Pacto"
. Era um homem muito destemido, que pegava touro à unha,
amansava burro bravo e caçava onça com zagaia.
Para ele não havia rival; vencia todos com facilidade;
porém, a única coisa que lhe metia medo eram as
cobras, mas isto não o preocupava, porque rezava todas
as manhãs para São Bento, o santo que protege o
homem de cobras.
Numa noite de lua cheia, com uma viola e uma garrafa de cachaça
debaixo do braço, ele foi para uma encruzilhada que ficava
num campo limpo, bem ao lado de um matagal. Lá chegando,
começou a beber e, logo, já estava aos berros,
convocando o demônio a vir ensiná-lo a tocar viola.
Ele gritava: Ô Cujo, vem cá! e nada acontecia. Ô
Tristonho, vem me ensiná a tocá viola!, e nada.
Ô Mofino, num tá me escuitano!, e nada. Ô
Tristonho, Bode Sujo, tá cum medo, Capeta!, e nada. Depois
de muito gritar, cansado da espera e um tanto bêbado, começou
a ouvir uns estranhos ruídos vindos matagal, e logo, em
sua direção por um trilheiro de gado, surgiu uma
vaca branca, dando de mamar para sete cabritinhos. Logo atrás,
uma cabra preta, amamentando sete porquinhos. Em seguida, um
porca branca com sete galinhas querendo mamar. Depois, uma galinha
preta com sete sapinhos pulando, também tentando mamar
e, de repente, cobras de todos os tamanhos surgiram, perseguindo
os sapos. O sujeito, que já estava assustado, ao ver as
cobras, não resistiu e gritou: São Bento!. No mesmo
instante, ele ouviu uma voz raivosa lhe respondendo de dentro
do matagal: Vai viver molambento!, e tudo desapareceu. Conta-se
que o homem ficou meio apalermado e passou a viver nas portas
das igrejas, tentando tocar uma violinha desafinada, todo sujo
e esfarrapado.
Um traço interessante na personalidade do violeiro é
que cada um deles se considera o melhor violeiro da região:
não suportam a idéia da existência de outros
tão bons quanto ele.
Os violeiros costumam trazer, no interior de suas violas, um
chocalho de cascavel, pois, segundo eles, o guizo possui uma
forte magia de proteção tanto para a viola quanto
para o violeiro.
Conta-se que, antigamente, nas disputas de violeiros, alguns
possuíam a magia de quebrar as cordas e, até mesmo,
o instrumento do seu adversário.
Esses violeiros típicos, que ainda conhecem as tradições
herdadas de seus pais e avós, estão desaparecendo,
e com eles, toda uma cultura que necessitamos preservar.
Texto e Pesquisa de Roberto
Corrêa
Extraído do livreto do CD "Uróboro" (1994) |